Há silêncios que não cabem na boca,
nem se explicam pela ausência da voz.
São conversas que a alma provoca
quando o mundo se esquece de nós.
Às vezes, fico assim, distante,
com os olhos pousados no horizonte,
não porque a vida seja insignificante,
mas porque procuro a nascente da fonte.
Há quem me veja calado e suponha
que nada acontece dentro de mim.
Mal sabe que o silêncio também sonha,
e que há caminhos que começam assim.
Carrego perguntas sem resposta,
decisões que ainda não sei tomar,
feridas que a memória não encosta
e sonhos que me recusam abandonar.
Já sorri quando a alma estava cansada,
já disse «está tudo bem» sem estar.
Já encontrei, no meio da estrada,
mil razões para desistir de caminhar.
Mas há uma teimosia que me acompanha,
uma esperança que não sabe morrer.
Mesmo quando a incerteza me ganha,
alguma coisa insiste em florescer.
Não penso longe por desprezar o presente,
nem por julgar pequeno o lugar onde estou.
É que trago comigo tanta gente,
tantos sonhos que a vida me confiou.
Penso no pão que amanhã será preciso,
nas mãos que esperam o meu regresso,
nos filhos que procuram no meu sorriso
a segurança que nem sempre confesso.
Penso nos erros que deixei pelo caminho,
nas palavras que devia ter calado,
nos afectos que perderam o carinho
e no tempo que não me será devolvido.
Compreendi que crescer também é perder,
que nem toda a vitória traz alegria,
que há coisas que precisamos esquecer
para não morrer um pouco a cada dia.
E quando me perguntam onde estou,
porque o meu olhar parece ausente,
respondo apenas que aqui estou,
embora o pensamento vá mais à frente.
Não sou mais sábio por ficar calado,
nem mais forte por esconder a dor.
Sou apenas um homem marcado
pelas lições da vida e do amor.
Há dias em que o futuro me assusta,
em que o passado me chama pelo nome.
E a coragem, por vezes, tanto custa
que até a esperança sente fome.
Ainda assim, continuo a olhar distante,
não à procura de um mundo perfeito,
mas de uma razão suficientemente grande
para não deixar morrer o que trago no peito.
Porque pensar longe não é fugir,
nem abandonar o chão que nos sustenta.
É aprender a permanecer e a construir,
mesmo quando a vida nos atormenta.
Um dia, talvez, alguém compreenda
o que este olhar nunca conseguiu dizer:
que o silêncio também é uma senda,
e que há sonhos que precisam de amadurecer.
E se o amanhã não vier como espero,
se a vida contrariar a minha vontade,
que ao menos permaneça o que mais quero:
ter vivido sem trair a minha verdade.
Pois nem todo o homem que olha longe
deseja partir de onde está.
Às vezes, procura apenas, no horizonte,
a força para enfrentar o que virá.
E é por isso que permaneço em silêncio,
com o olhar onde os meus pés não vão.
Não porque me faltem palavras,
mas porque há futuros
que começam primeiro no coração.